segunda-feira, 2 de outubro de 2006

10 minutos #boneca

- olá..., quem és tu? estás aqui há muito tempo?
...nas águas furtadas onde Lisboa se deita à janela, há uma casa de bonecas pequenina e na pequenina casa de bonecas, estás tu...
- e quem és? Matilde de olhos claros vou chamar-te e a mim contar-me a tua história por plena vontade de encontrar o teu propósito, o teu princípio e fim.
boneca de trapos, de tecidos, de restos que ganharam sonhos.
boneca com alma de algodão de travesseiro e pele de estoupa crua que faz de ti singela e forte.
tens uma saia de pintas para as bonecas distintas, e não só..., tens histórias alinhavadas a todos os retalhos que te dão vida e cor.
o veludo castanho do teu cabelo está penteado e aprumado com fita rosa de cetim, cetim de rosa como as sapatilhas de ballet entrelaçadas nas pernas das meninas.
a camisa de cambraia garrida contrasta com a gola de sablé e renda branca.
de riscado riscadinho tal qual camisa de Sr. Dr., tens culotes e nos pés um tecido tatuado relembra uma origem distante, pelo menos daquela rua.
tens sapatilhas de tafetá preto de gala, no coração tecido azul porfundo e resistente.
as flores penduradas à cintura, numa faixa que abraça o teu gracioso tamanho, não murcharam este fim do verão, nem murcharão.
- és tu, boneca, Matilde de olhos claros, de alguem? se não minha, agora...
és o achado de um fim de tarde, onde o trémulo das cores do céu encerram aquilo que menos esperas... apaixonar-te.

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